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Caminhadas estranhas
Participei, neste final-de-semana, e ao menos visualmente, de duas caminhadas exóticas. Uma delas ocorreu na sexta-feira O ambiente em casa não estava legal, o povo meio doido de tequila, barulhentos, cds de música caipira, depois rock, logo os vizinhos iriam reclamar. Tive a premonição de uma noite enlouquecida, sem conseguir dormir. Decidi ir para um hotel.
Fiz a mochila e, sob entusiásticos comentários e gozações, sai de bike, combinando (mentira, achei) que iria encontrá-los num tal de Prost, Prosid, não sei, onde um maluco regional cantaria ou o que quer que ele fizesse. Fui para o hotel, mas decidi, antes, rodar um pouco e ir ver esse tal lugar. Foi bom.
Encontrei três garotos de Dobrada, cidadezinha próxima, que tinham uma sólida indicação de rota para chegar ao tal lugar. Fiquei inseguro e decidi tentar descobrir por mim próprio.
Ficava distante, uns três quilômetros. Felizmente encontrei um rapaz que sabia indicar caminhos, e me alertou, ainda, de que o lugar era uma chácara. Deixei os dobradenses e fui.
Bem, uma chácara. uns 6 mil metros quadrados, totalmente cercada por muros cobertos de primaveras. Portão de madeira, três metros de altura, segurança profissional, 15 pilas, todos me olhando (afinal, o que um senhor de 54 anos, de bicicleta e mochila, estaria fazendo num local como aquele?), fiz pose e entrei. Já bem louquinho.
Lá dentro o ambiente é bonito. Grama,galpões de tijolo à vista, sem paredes, apenas telhados e chão. Todos fumam maconha. Em rodinhas, sentados, em pé, no palco tocando bateria. Todos enrolam. Os seguranças, olham. Lá, reencontrei os dobradenses.
A caminhada, qual era? Então, antes de chegar lá, vi uns 10, 15 grupos de rapazes e moças, em três e quatro, caminhando em direção ao local. Conversando baixinho nas ruas desertas de uma cidade a 300 kms de São Paulo. Todos fluindo e confluindo. Todos com o mesmo objetivo. Todos sob a mesma lua enorme, cheia. Todos - ou quase todos, imagino - maconheiros. Realmente especial.
Sai de lá duas da manhã, já entopido de erva, uísque, e fui para a cama.
Ontem, o primeiro comício do candidato para o qual trabalho. Foi no Bom Jesus, uma bairro pobre, com altos postes, lâmpadas amarelas, fracas, iluminação lígubre, "iluminação de bandido", comentou alguém. A carreta enorme, com o palco em cima, a iluminação feérica fornecida pelo gerador de um trator, os dois telões, tudo contrastava com o bairro e sua gente,
Aqui e ali, uma venda, um buteco.
E pessoas, caminhando pelas ruas escuras, chegando aos poucos. Pequenos grupos, tão diferentes dos da noite anterior. Mas também uma caminhada em direção a algo.
No céu, um eclipse lunar aos poucos ia embora.
Noites muito loucas.
Escrito por Geremias às 10h46
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O apagar de uma velha chama
Livros policiais. Há um conto do Borges, chama-se A Biblioteca Circular, senão me engano. Trata-se de uma biblioteca que abriga todos oslivros possíveis (passíveis?) de serem escritos - assim: a combinação de todas as letras, de todos os alfabetos, de todas as maneiras possíveis.Então, deve haver um livro apenas coma letra "a", outro com apenas a "b", outro com "ab", outro com "ba", e assim ad infinitum.
A arquitetura é circular, como se fossem silos enormes, que prosseguem para cima e para baixo (infinitamente, imagina-se), um ligado ao outro por pequenos corredores. As paredes dos silos são cobertas por prateleiras circulares, onde estão os livros. No centro, um espaço vazado comunica um andar do silo ao seu vizinho imediato,de cima e baixo. Uma balaústrada de ferro batido, vazada, impede que bibliotecários enlouquecidos saltem para o vazio com muita facilidade.
Imagino que haja alguns destes silos cujas prateleiras estejam tomadas por romances policiais. Pois há multidões, gotas de chuva de livros policiais. Romances, novelas, contos, a prolixidade do escritor policial parece não conhecer limites. Tenho oito volumes, em letra miúda, papel bíblia, com a totalidade dos textos de Agatha Cristhie. E Nero Wolfe? P. D. James? Patrícia Highsmith? Ngaio Marsh? ED McBain? John e Ross McDonald? Escrevem miríades.
Estou lendo John Dunnig, Assinaturas e Assassinatos. Vou te contar,ele vai ter um trabalhão para me impressionar. Pois esse senhor é o autor de Impressõese Provas, uma das coisas mais bem escritas da história do romance policial. E isso não é pouco.
O título desta postagem é como ele nomina o Livro I, dos vários qaue compõem olivro.
Escrito por Geremias às 12h55
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Sete da noite, uma panela com o que será, certamente, o melhor molho de tomate que Matão já soube da existência nos últimos três anos. Estou fazendo na casa que alugaram para nós aqui na cidade.
Escrito por Geremias às 19h05
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Carrança, adorei essa piadinha. Um cara no hospital, todo estourado, porradas por todo lado, super-cílios (ambos) arrebentados, três dentes moles fora os dois quebrados. E o irmão querendo saber, sentadinho na outra cama , o que havia acontecido. Ele não tinha muita certeza.
Eu andava na rua, e, de repente, aquela aglomeração. Um bandinho em torno de alguém, mas com muito respeito. Fui ver correndo, e o que era, ainda antes de a ambulãncia chegar? uma prostituta, era ali no centro, e a prostituta tinha acabado de parir, ali na rua. Verdade que a tinham carregado para um banco na praça, e tinha uma fulana, de Sacadura, que sempre tinha sido parteira, e fez o parto, o molecão já chorava alto, e eu fiquei emocionado. Tipo lágrimas nos olhos, a cena inspirava.
Corri até uma Drogasil ali do lado, era quatro da tarde e tudo estava aberto e cheio de gente. Comprei um pacote dos grandes, de 12 pacotes menores, de fralda descartável, tão emocionado eu estava, e fui levar prá garota.
Foi sair da farmácia e aparecer na minha frente aquele armário, 2 x 1, que eu conhecia vagamente, e me perguntar: e aí, meu, onde vai esse pacote?
Bom, respondi rapidinho, para sair dali logo, pois tinha uma reunião: o pacote vai prá puta que pariu.
Foi isso, mano, que eu estou aqui, mas juro, não entendi nada...
Escrito por Geremias às 18h55
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Amanhã, mais um dia de inveja mortal do dedonoolho.blog, ou algo assim. Eu também queria saber lidar com animais selvagens.
Escrito por Geremias às 18h42
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The fucking Dia dos Pais. Oras, é claro que não sou um pequeno-burguês preocupado com símbolos idiotas. Com dias idealizados onde representamos tudo aquilo que deveríamos ter dito aos nossos pais. Claro que não.
Mas, então, porque essa ausência, essa certa pequena raivazinha por nem a Olga, o Daniel, ou a Jussara, terem ligado? dando os parabéns, me deixando sem graça por ainda não ser perfeito? enfim.
Escrito por Geremias às 18h41
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são semanas passadas à volta com uma campanha eleitoral, sem ao menos segundos para separar algo de outra coisa. Certas obviedades vêm à tona. Obviedades é apenas uma expressão - e no contratexto, embora não seja substituída por palavras mais doces, quer dizer a mesma coisa. Quer significar que estabeleci alguns laços tão intensos, que são de certo jeito... que são amores, benquereres verdadeiros. Então, obviedade quer dizer não eles existirem, mas, sim, falar deles. É como se dissesse, isso é óbvio. E, no caso em particular, fico até pensando se quero continuar,porque esses amores, (minha) mulher e (minha) filha, são meus.
Mêdo, tripas se revolvendo, durezas imediatas. Que não sou um executivo, já sei. Tanto tempo como assessor de imprensa, como algo tentando ser alguém. Me imaginando, repentinamente , como vice-presidente da AE para a América Latina,de Comunicações. Bem, isso foi se aclareando com o tempo. Não sou eu, eu sou outra coisa, com competências até interessantes. Mas não sou vice-presidente da American Express.
Mas esse lugar de agora é muito parecido. Esperam de mim algo que não sou. Mas o que sou seria até mais importante e interessante e resolvedor de problemas. Só que para poder externar e influenciar, o que sou deveria ser o que eles querem (e, aplicando uma prática, na prática, eficiente. Eles demorariam uma semana para perceber).
Bem, tudo isso são lamúrias.
Há um candidato,e quando eu, ou outros, falho,ele se fode. Há militantes (poucos), há gente trabalhando sério. Uma campanha é um movimento. Poderia ser de grupos de pessoas querendo chegar a algum lugar, mas, normalmente, são de uma pessoa, em torno da qual se agrupam outras, e trasvestidas das cores de um partido, de uma simpatia, de uma ideologia.
Uma campanha são nervos, com pouca carne em volta.
Há candidato inchado de cachaça, populista, que pegou carona - e traiu - em ideologias séria. E há candidato criado por tias, com marketeiros que não saem do armário.
(por minha janela entram cãnticos amplificados a um quilometro. São as vozes das famílias católicas em sua igreja principal. Canticando. Evangélicos, protestantes, ao menos, têm o charme antigo de serem dissidências. Mentira. Não tem charme nenhum. Mas pelo menos são dissidências).
Candidatos esperam muito de gurus, e sabem pouco da realidade à sua volta, e de si próprios, e do que, exatamente, querem.
Escrito por Geremias às 18h24
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Os Focolares e as sopas
Acabei de voltar de um lugar inacreditável, incrível. Numa cidade do interior de SP, a 300 kms da capital, eu estive num salão do Rotary - sabe aquele clube, tipo Lions? -, ocupado, naquela noite, pelos Focolares (não sei se a grafia é essa). São uma divisão, ou seita, dos católicos, dedicados a dar sequência à obra de uma mulher que, em Trento, Itália, durante a Segunda Guerramundial, e sob os bombardeios aliados que destruiram a cidade, ajudava as pessoas, e começou um movimento contra a guerra, ou a favor da paz, o que deve ser quase a mesma coisa.
Serviram caldos - tudo aquilo destinava-se a arrecadar fundos para o movimento, creio -, dos quais tomei três dos cinco tipos existentes.
Sou um bom cozinheiro, descendente de duas famílias de glutões e de ótimas cozinheiras. Já tomei caldos e sopas excepcionais.
Comecei com o caldo de feijão. Brilhante! Havia algo nele, algo especial, particular e, mesmo agora, não sei definir exatamente o que era aquilo. Tive tempo para pensar, e tem a ver, com certeza, com o sabor do feijão feito na lenha, com a família por perto, aguardando o momento de se sentar à mesa, com sucos caseiros, tranquilidade e aconchego. Não era apenas o sabor.
Depois, dediquei-me ao caldo de mandioca com carne seca, e posso dizer, lamentando, que não há em São Paulo lugar onde se coma algo parecido com aquilo. A carne seca desfiada mas não destruída, dessalgada da maneira correta, a mandioca transformada em creme mas com pedaços soltos, algo divino!
E ousei experimentar um pouco de molho de pimenta. Digo ousei porque 97,2% das pessoas não tem noção do que né um molho de pimenta, não tem a menor idéia de como fazer um bom. Esmagam, moem, cortam, e ai colocam na pinga (grotesco!), no vinagre (eca!), com água (menos mal, mas dura dois dias e lixo). E quem fez aquele cortou as dedo-de-moça em fatias finas, amasou-as levemente e colcou - claro, óbvio - azeite. Ou óleo. De qualquer maneira, um molho muito bom. O tal do molho de pimenta comme il faut.
E, depois, ainda, o Erik, ousado garoto de sete anos, ajudou-me a decidir tentar um terceiro, o mesmo com o qual ele se deliciava, caldo de milho verde. Terceiro acerto. Não há o que dizer. Acabei não tomando o caldo verdee um outro, que não sei do que era. Lamentável, mas estava entupido.
O salão estava cheio de famílias com ar de quem estava se divertindo, fazendo coisas em comuns, muito diferente de outras reuniões como essa, em minha cidade, chatas e desagradáveis, e com comida de segunda linha.
Era um salão do Rotary, oupado pelos Focolares, e eu estava no meio de uma campanha política, longe dos amigos e da família (naquele momento, a 450 kms de distância, milha filha festejava seus 21 anos...). E fui dormir contente.
Escrito por Geremias às 11h27
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Uma reincidência estúpida
A Jussara decidiu que a área embaixo do nosso varal - que eu, orgulhosamente, construí - deveria ser gramada. Assim, acordou às 4h30 desta madrugada, foi ao Ceasa com a Rita (uma outra hora falarei da Rita, que meio que idolatro, uma louca pensadora de primeira), e trouxe 21 metros quadrados de grama Esmeralda - da qual eu particularmente gosto.
Ai veio o Mauricio, um faz-tudo do bem, com tatuagens, que achou dois pés da poderosa nascidos naturalmente no quintal. Mas veio o Mauricio e começou a escavar, com um enxadão, a área onde a grama seria plantada. Para afofar a terra, tirar pedras, essas coisas. E, claro, quebrou o cano de água que alimenta a torneira de regar as plantas.
Isso, às 08h30. Quem consertou? eu, claro. Estúpido, sim, mas porque reincidente?
Por que, meses atrás, estava o Joaquim, outro faz-tudo, capinando o local para que eu instalasse o varal. E, adivinhem, o que aconteceu?
Pois é.
Escrito por Geremias às 14h01
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Crianças e cavalos
O que mudou?
Minha preguiça em escrever se mantém, mas tenho 13 quilos a menos, alguns músculos a mais, consigo ler teoria sem bocejar, e continuo me encantando com policiais, ficções e romances. Minha alimentação mudou, estou com uma companheira - pela primeira vez na vida (à exceção, claro da mãe da minha filha) - a quem respeito e que me respeita.
Talvez agora eu consiga escrever pelo prazer das letras se somando, as palavras ganhando sentido. Talvez, agora, eu consiga contar histórias alheias.
Histórias de campanhas. Como a do Russo. Duas vezes vereador, duas vezes presidente da Câmara de uma cidade com 1,7 milhão de habitantes, capaz de dizer, com tranquilidade, como se estivesse cometendo um pensamento filosófico de primeira grandeza, que "a lei foi feita para ser burlada". Ou, quando, na convenção do partido que oficializou a candidatura de determinado sujeito que ele apóia para prefeito, e que oficializou também os candidatos a vereador - entre os quais duas dezenas de mulheres -, ele pediu calma: "sei que já são 11 e meia, e que as mulheres querem ir para casa fazer o almoço - mas, calma, que os maridos esperam...".
Há mais, claro.
Mas há coisas muito mais interessantes que a política. Noutro dia fiquei de babá por meia hora, de uma criança de cinco anos, em um posto Graal. Pai e mãe dela andavam desaparecidos entre as montras, comendo e comprando. Eu e a garotinha procurávamos o cavalo dela, o Fino, que também estava ali, por ali, entre as prateleiras, junto com o Henrique, irmão dela de dois anos. Ambos tão substanciais quanto as ondas do rádio. Mas cansamo-nos de verdade, e a experiência foi inteiramente real.
Comigo, a criança comportou-se como uma criança. Com os pais, tornava-se uma pequena ditadora. Comigo, ela intergia; com os pais, os adestrava, exercia poder. Exatamente como o Fino e Henrique, aquela criança com quem andei pelos corredores do Graal não existia, materializava-se em ectoplasmas brincantes que duravam o tempo em que nós dois conversávamos. Sua realidade cotidiana, sua realidade existencial, tinha como espaço concreto a vida com os pais. Ao meu lado, encontrando uma outra não-realidade, ela permitia-se a incorporação.
Será assim sua vida futura? Uma esperança de localizar, enfim, Henrique e Fino, num dia-a-dia chato, ranheta, autoritário? Espero que não. Mas, como saber se minha própria experiência diz que é assim que será?
O Russo é isso. Uma criança existente num espaço concreto. A não-criança talvez ainda conviva com cavalos e irmãos inexistentes mas reais.
Escrito por Geremias às 13h42
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Um retorno
Estou de volta, a pedidos. Pedidos meus, sussurrantes, meio que quase inaudíveis, que apenas vou percebendo aos poucos. Pedidos da minha filha, leitora bissexta mas reincidente e instigante, deste blog. E a situação também é outra.
Assim, acontecendo de uma maneira surpreendente, estou envolvido em campanhas políticas. Trabalhando nelas. Conflitos. Mas vamos ver. E falar a respeito.
Escrito por Geremias às 12h41
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Comecei e continuarei me obrigando a escrever. Porque tenho me recusado é algo que não sei exatamente, mas tenho me recusado a escrever, talvez porque tenha acabado a limitação entre o que fui e o que sou, e a descoberta de que não há mais intimidade tenha aparecido, então, PORQUE NÃO ESCREVER? PORQUE DEIXO DE SER? PORQUE ESTÁ UMA MARAVILHA BUSCAR O PÃO NA PADARIA? Porque não tenho obrigação nenhuma de reportar o que é ser quem eu sou hoje em dia? Nem mesmo pelo meu ego? Pode ser. Mas vou me obrigar. Acabei de ler um parágrafo que a filha de minha mulher escreveu, e gostaria muito de suplantar a qualidade do que ela fez. Só por isso escreverei. Não para contar da minha época – da minha sim, como leit motiv, como esqueleto sobre o qual colocarei as carnes de meu texto – mas para escrever. Reler e ler a frase e falar – uau! Essa ficou boa. A história, o enredo, que importância tem? Para alguns. Mas para mim, o texto. O texto.
Isso sim. Contar a história é o máximo, mas talvez eu me dê melhor buscando o texto. Como assim: assim. Provavelmente morrerei de inveja de enredos, roteiros e idéias. Mas acho que quero é criar frases lindas. Uma palavra depois da outra, e alguém que sabe ler abaixa o livro, o texto, pára, suspira, e pensa – ah, Senhor, que frase... Nenhuma ligação com o contexto, só as palavras umas depois das outras. Pois é. Cagão como sou, o que me justificaria junto aos meus parceiros? Só esse interesse? Acho que acabarei por dizer pau no cu dos incautos.
Minha barriga cresce, meu peso aumenta, e eu continuo igual. O dilema freudiano está aí, e não sei se serei melhor morador do século 21 que consegui ser do 20. Faz diferença se consigo atuar, desde que veja como a mudança se instala? São mais importantes para a Humanidade meus amigos que atuam, mas não entendem ou assimilam as mudanças que acontecem?
Nada do que penso é racional – sou Homem, humano e animal. Razão e instinto, Darwin. Nada do que sinto é contemporâneo, sequer moderno. A razão é novidade sem ferramentas.
A Kelly, garçonete do Pipa, e a Helena, filha de minha mulher, compartilham da mesma obscenidade – nenhuma das duas sabe qual é a real, a vida nascendo do capim, as minhocas, o leite saindo do úbere, etc e tal. Com as diferenças que as determinam socialmente, ambas desconhecem ritmos. E, assim, garçonete e produtora, ambas são urbanas e isso basicamente quer dizer que não sabem nada de como é o dia-a-dia.
Há uma diferença entre humanos que descenderam dos ..., não importa – mas chegamos aqui, e acho que qualquer discurso de que o planeta vai dançar atinge ouvidos moucos. Alguém que só viveu em botecos de periferia ou em shoppings de classe média, NÃO ENTENDE, NÃO TEM IDÉIA, E NÃO FOI TREINADO PARA ABSTRAIR. O MUNDO ESTÁ ACABANDO E ESSAS PESSOAS, A maioria DELAS (que bosta esse caps lock), nem sabem o que é o mundo.
Bom, depois disso vem essa história política, ideológica.
As loucuras pessoais.
As demências ocasionais.
E como lidamos com tudo isso.
Achei que, após ter deixado de ser um enlouquecido, tolamente, como aquele Fukuyama, as coisas estariam resolvidas. Rs...rs...rs.
Ambas, Helena e Kelly, olham pra frente.
Eu, consegui uma coisa, que é parar de perder meu tempo por mais de três ou quatro meses. Antes, eu gastava anos.
Escrito por Geremias às 23h07
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Oras, eu gosto tanto do sexo feito com amor e carinho, descobri uma paixão e mulher, tenho uma companheira. Mas também gosto da barbardade, da dor infligida. quem escreve isso? Geremias, eu, ou um autor? Oras convenhamos, e penmsemos em nossas punhetas escondidas. Nem falarei sobre as siriricas. Conheço as mulheres. Elas gostam de tudo.
Escrito por Geremias às 03h53
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São tão pequenos os prazeres de um homem (talvez de uma mulher), quando comparados com os prazeres de gente que mata. Que estupra. Que fode cadáveres, que bebe sangue, que tortura. Esses são prazeres viscerais (às vezes, literalmente). O que leva essa gente a isso? Tirando os casos de acidente com dano cerebral, de maltratos infantis, enfim, aquele grupo pequeno, de gente "normal". Eu continuo achando que quando a gente, criança, nenê, se percebe uma pessoa, um ser diferenciado, enlouquece. Animais, ou símios, chegam próximos, mas nós, humanos, vamos mais longe. Nós temos auto-consciência, e não temos muita prática nisso. Acho que todos nós enlouquecemos lá pelos dois ou três anos de idade. E depois lidamos com isso de algum jeito. Ou é possível crer que a sociedade mundial que criamos é fruto de gente sadia?
Escrito por Geremias às 03h10
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Sues olhos nos meus
deliciosos, ainda mais agora depois de trabalhar horas no terreno baldio ao lado de casa e voltar cansado, heróico, suado, com sede e ter a perspectiva de comer pequenos torresmos de gordura bovina com cachaça, e uma cerveja gelada, isso soa muito delicioso, ainda mais porque o dia está cheio de sol e de vento e tem passarinhos e nós estamos em são paulo que é uma cidade - e cidades grandes normalmente não permitem dias ao ar livre com passarinhos e suor de cortar matos e limpar sujeira e torresminhos, mas isso eu já falei. e também que eu estou sózinho, desfamiliado neste final-de-semana, isso eu ainda não tinha contado.
então, deixando, com dificuldades os torresmos de gord- vou voltar ao um tema muito querido que são quando os olhos se nos enchem-se de estrelas - sacou? pois aquela menina faz isso com meus olhos, com sua pele e seus cabelos, mas não é apenas ela que faz isso comigo, minha mulher também faz, e tem o filho de um amigo dele que também enche meus olhos de estrelas e me faz engulir em seco, assim como a irmã dele, mas menos, e era disso, tenho certeza, que Konstantinos Kaváfis, poeta grego de Constantinopla, falava quando escreveu o seguinte:
Lembra, corpo...
Lembra, corpo, não só o quanto foste amado, não só os leitos onde repousaste, mas também os desejos que brilharam por ti em outros olhos, claramente, e que tornaram a voz trêmula - e que algum obstáculo casual fez malograr. Agora que isso tudo perdeu-se no passado, é quase como se a tais desejos te entregaras - e como brilhavam, lembra, nos olhos que te olhavam, e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.
Tradução: José Paulo Paes
certo? deu prá entender do que estou falando?
Escrito por Geremias às 16h58
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